Edifício de escritórios

  1. ANÁLISE DO CONTEXTO URBANO E ESTRATÉGIAS DE IMPLANTAÇÃO

O local de implantação do projeto de ampliação da área corporativa da Porto Socorro pode ser caracterizado, do ponto de vista urbanístico, como uma área de grande relevância no contexto da região central de São Paulo, bem dotada de infraestrutura e que apresenta tanto características de um bairro consolidado quanto transformações significativas em curso. Neste último caso, o complexo da Porto Seguro, implantado e em processo de implantação, tem um papel fundamental e coloca-se como um potente indutor de desenvolvimento e de dinâmicas em uma área que por décadas sofreu com problemas de decadência urbana e ainda apresenta dificuldades decorrentes das indefinições de planos urbanísticos não implantados ou congelados.

As quadras do entorno do lote definido para implantação do edifício apresenta uso misto, onde é possível identificar comércio, serviços e edifícios residenciais de pequeno, médio e grande porte. Ao longo da Rua Guaianases, por exemplo, podem ser vistos uma série de imóveis históricos, alguns tombados, de grande qualidade arquitetônica, como é o caso do edifício que hoje abriga a Biblioteca da Porto Seguro e o imóvel do lado oposto do terreno foco do projeto.

Uma das premissas do projeto é a possível interligação no novo edifício com a Biblioteca e com o atual Galpão da Porto Socorro. Como ponto de partida, compreendemos o terreno do projeto não como uma unidade isolada espacialmente – embora o seja do ponto de vista da legislação urbanística – e, desta forma, a primeira diretriz de implantação adotada  passa a considerar um estudo volumétrico e um desenho de percursos capaz de articular os três edifícios e o entorno imediato, ou seja, os edifícios vizinhos e a própria rua.

Nossa estratégia para interligação do conjunto parte, portanto, dos espaços livres entre os edifícios, que formam um percurso visualmente permeável à rua, mas de acesso restrito aos usuários do complexo.

Como a demanda da Porto Seguro é o projeto para duas opções de edifício, considerando Coeficiente de Aproveitamento 1 (CA=1) e 2 (CA=2), buscamos uma resposta para ambas as soluções a partir do mesmo conceito de implantação, realizando apenas os ajustes necessários para cada caso.

  1. PROCESSO DE PROJETO
    • O terreno do projeto apresenta duas faces fechadas pelas edificações vizinhas e uma divisa em relação à biblioteca, que pode ser retirada.
    • Sabemos que a Taxa de Ocupação definida pela Lei de Parcelamento Uso e Ocupação do Solo (LPUOS) vigente é 0,5, o que significa que somente metade do terreno pode ser ocupado. Seguindo tal parâmetro, desenhamos um embasamento térreo, cuja altura está alinhada com o embasamento da Biblioteca, construindo uma referência volumétrica visualmente relevante
    • O embasamento foi posteriormente dividido em duas partes que ocupam toda a largura do terreno, sendo que a primeira está alinhada com a frente da Biblioteca, gerando um bom recuo em relação à rua e a segunda é implantada deixando um respiro em relação ao edifício vizinho nos fundos do lote.
    • A área entre ambas as partes do embasamento é o principal espaço livre articulador do conjunto, transformando-se em um pátio no meio dos dois lotes. Para demarcarmos esse espaço de forma mais clara, propomos um rebaixamento de piso de cerca de 0,50m, algo próximo também ao piso inferior da Biblioteca.
    • No espaço entre a Biblioteca e os novos embasamentos, propomos a extensão do pátio rebaixado. Pretendemos que este seja o principal ponto de acesso de pedestres ao conjunto de edifícios.
    • Sobre o embasamento implantamos um volume perpendicular a eles, no sentido longitudinal do terreno. Este volume tem comprimento similar ao edifício da Biblioteca e está deslocado no terreno de forma a estruturar o pátio e garantir os recuos necessários em relação à Biblioteca. Ademais, sua fachada sudeste, a de menor grau de insolação, abre-se para o pátio e para o teto do embasamento, que eventualmente poderão transformar-se também em áreas de convívio. Na versão CA=1, este volume superior tem 2 pavimentos.
    • Na versão CA=2, o volume superior do edifício amplia-se para 4 pavimentos e desloca-se do embasamento 1 pavimento a mais. O embasamento continua o mesmo, bem como as relações do pátio e dos espaços livres.
    • Na versão CA=2, o espaço intermediário entre o embasamento e o volume superior surge para acomodar um número maior de áreas de convívio e outros programas decorrentes da ampliação de usuários no edifício.
    • Embora o volume superior no CA=2 seja maior, sua relação com o entorno não é prejudicada. Acreditamos que, desta forma, ambas as soluções respondem às demandas da Porto Seguro com a mesma qualidade de espaço e impacto urbano pretendido.
  2. ESTRUTURA E ESCOLHA PRELIMINAR DOS MATERIAIS

O projeto não apresenta nenhuma complexidade estrutural na sua concepção. A estrutura está basicamente divida em 2 elementos, o embasamento e volume superior. O embasamento apresenta estrutura de concreto na periferia dos dois volumes térreos, com vãos de 9,70m e 5,70m. Já o volume superior, mais leve, utiliza estrutura metálica localizada junto às duas fachadas longitudinais e travadas por 4 pilares de concreto, localizados em par no núcleo hidráulico e no núcleo de circulação vertical.

A estrutura metálica é modulada em 3 vãos de 8m e mais balanços de 4m nas extremidades. As duas linhas de estrutura metálica na fachada estão distantes também 8 metros entre si, sendo que as cargas são distribuídas e fazem a transição para os 4 pilares laminares de concreto ao longo dos pavimentos e também para os 2 pilares circulares de concreto no pavimento térreo (ou no pavimento de intermediário, no caso do CA=2). Assim sendo, consideramos que os vãos para estrutura metálica são extremamente econômicos e condizem com o programa apresentado.

Em relação aos materiais, consideramos que os elementos estruturais fazem parte, por si só, da tectônica do edifício. Portanto, o embasamento será externamente em concreto aparente, bem como a estrutura metálica ao longo das fachadas mais abertas.

Em relação às vedações, consideramos que o edifício tende a ter aberturas maiores na medida em que volta-se para o pátio. Assim, no volume superior realizamos uma sobreposição de chapas metálicas opacas nas demais fachadas – representadas previamente no modelo eletrônico como aço corten, mas que deverá ser objeto de discussão posteriormente com a equipe da Porto Seguro.

  1. IMPACTOS NO PROCESSO DE APROVAÇÃO

Das intervenções realizadas, as únicas que atingem o lote da biblioteca dizem respeito ao rebaixamento de piso do pátio e a escada externa para acesso ao teto do embasamento. Em termos de legislação municipal, tais elementos deverão ser objeto de aprovação referente ao lote da Biblioteca, portanto, paralela ao projeto do novo edifício. Acreditamos que seja viável realizar o processo de aprovação de ambos os lotes simultaneamente.

  1. SOLUÇÕES DE CONFORTO AMBIENTAL – PREOCUPAÇÕES ECOLÓGICAS E ENERGÉTICAS

Insolação.

A gradação de aberturas realizada em todos os volumes do novo edifício dizem respeito aos diferentes níveis de incidência solar, variáveis em função da direção e do percurso do sol ao longo do ano e do dia.

Desta forma, a fachada noroeste é aquela que recebe mais sol e calor ao longo dia, com incidência das 12:00h às 18:00h no verão, das 12:00h às 17:30h no inverno e das 13:00 às 18:00 na primavera. Justamente por isso é encarada como uma superfície predominantemente opaca, protegida por meio da utilização de uma parede dupla, camada de ar e isolante térmico. A única exceção nessa fachada são rasgos horizontais que utilizam a própria dimensão da parede dupla para o recuo da janela, de forma que o sol não penetre diretamente no ambiente. Nas fachadas sudoeste  e nordeste do volume superior, que recebem uma incidência solar de menor porte – mas não menos significativa – a mesma chapa metálica e isolantes térmicos são utilizados, deixando-se apenas rasgos estratégicos para iluminação dos ambientes internos.

A fachada frontal ao pátio, sudeste, é aquela com a menor incidência solar no conjunto, com incidência das 5:30h às 11:30h em dois meses do verão e das 8:00h às 10:00h na primavera. No inverno, ela não recebe sol devido à sombra projetada pela torre da Porto Seguro do outro lado da rua. Desta forma, optou-se pela abertura total em vidro para que os usuários tenham um contato visual com o pátio e com espelho d’agua e para que a luminosidade do ambiente seja garantida, com objetivo de poupar energia elétrica ao longo do dia. Para diminuir o impacto da incidência solar nas manhãs de verão, foi  utilizado vidro com fator de proteção solar que não permite a transmitância térmica e barra os raios solares diretos. Como solução complementar, inclusive, podem ser utilizadas persianas internas de madeira com aletas de 5cm, a ser discutido futuramente.

Captação de água da chuva e reuso.

Foi contemplado no projeto o manejo ecológico das águas pluviais: a água da chuva foi captada, armazenada e reutilizada.  O armazenamento e tratamento da água foi realizado de duas maneiras: sobre a laje dos embasamentos, conformando espelho d’agua, e no subsolo ao lado da área técnica.

O tratamento da água pode ser realizado no subsolo com ozônio, sendo necessário que a água permaneça em constante circulação com os espelhos d’água exteriores. Outra solução possível é que a água possa ser oxigenada através de espécies vegetais paisagísticas no espelho d’água. A água de reuso serve para rega do jardim e para a descarga sanitária, sedo que a capacidade total de armazenagem calculada foi de 47.800 litros.

Além de armazenamento, o espelho d’água tem a função de isolamento térmico da laje do embasamento. Caso o reuso não seja prioritário para a Porto Seguro, as mesmas condições de isolamento podem ser atingidas a partir da utilização de teto jardim, por exemplo.

Vegetação e arborização.

Garantimos a área permeável no térreo a partir dos jardins localizados nos recuos frontal e de fundos. Ademais, uma parede verde vertical de aproximadamente 100m² foi desenhada junto à rampa de acesso ao estacionamento – sendo visível a partir do pátio, através das paredes de vidro da recepção. Previmos também um canteiro para árvore de pequeno porte no pátio. Tanto a parede verde, o canteiro no pátio e as áreas permeáveis pontuarão no instrumento chamado “Cota Ambiental”, previsto na revisão da LPUOS em curso.

Cobertura e eficiência energética.

A laje de cobertura terá função técnica e abrigará os reservatórios convencionais e de reuso, parte das máquinas de ar condicionado, possivelmente placas solares de geração de energia, bem como piso elevado para atenuação da carga térmica.

Mobilidade Sustentável.

Foram previstos bicicletários junto à rua e vagas extras no subsolo, com vestiário.

  1. DISTRIBUIÇÃO PROGRAMÁTICA CA=1

Em relação à estruturação do projeto, são dispostos núcleos na interseção entre os volumes do embasamento e o superior de escritórios. O núcleo localizado mais ao fundo do lote conta com as circulações verticais, bem como passagem de infraestruturas entre pavimentos e o localizado mais a frente configura-se como núcleo hidráulico. Todos os programas de uso comum foram acomodados no térreo, de forma a se relacionarem com o pátio. O volume superior concentra as estações de trabalho e áreas de reunião, ambas presentes também no térreo ao fundo do lote.

O pátio central é ao mesmo tempo área de chegada e local de convivência e estende-se com o mesmo piso sob o volume superior de escritórios. Justamente nesse ponto, localizamos a recepção, onde é realizado o controle de acesso ao edifício e onde ocorrerão as áreas de espera para usuários externos.

Em relação aos acessos, prevemos que um novo gradil possa estender-se no alinhamento da mureta da Biblioteca, junto à calçada até o limite da rampa que dá acesso ao pátio. Neste local poderão ser instalados portões para fechamento do conjunto em períodos de não funcionamento, sendo que o controle de entrada e saída de pessoas, caso exista, poderá ser discutido posteriormente com a Porto Seguro.

No volume de embasamento ao fundo do lote localizamos postos de trabalho, sanitários e áreas para reunião da equipe. Esse volume tem aberturas visuais para o pátio e para o jardim no recuo dos fundos.

No volume à frente do lote estão dispostos a sala de treinamento para guincho, cujas dimensões podem comportar mais do que 15 pessoas, bem como um núcleo com sanitários e um café. Os sanitários servem simultaneamente à sala de treinamento, à recepção e eventuais visitantes. O café foi entendido como um espaço de transição, servindo para uso interno dos funcionários, como copa de apoio à sala de treinamento e, eventualmente, também como complemento à área de espera dos visitantes. Esse volume tem aberturas visuais para o pátio e para o jardim público no recuo frontal.

Identificamos também no térreo, junto à sala de segurança, um acesso à garagem no subsolo. A parada do automóvel, no nível térreo, é feita sobre área coberta, onde deixamos a possibilidade de acesso restrito ao edifício, caso seja necessário. No subsolo desenhamos 19 vagas e posicionamos vagas complementares para bicicleta, vestiário e as áreas técnicas. O número de vagas foi colocado somente como um referencial de desenho, sendo que poderá ser facilmente ampliado em novos subsolos com a mesma configuração, a depender das demandas da Porto Seguro, da escolha entre CA=1 e CA=2 e da LPUOS em processo de aprovação.

O volume superior do projeto concentra boa parte dos postos de trabalho. As estações de trabalho estão concentradas entre os dois núcleos (de circulação e hidráulico), com circulações periféricas junto às fachadas. Consideramos dois espaços de reunião atrás do núcleo hidráulico e, atrás do núcleo de circulação, prevemos área para arquivo e acesso aos shafts de infraestrutura.

Nesta versão de CA=1, indicamos que os tetos do embasamento podem ser acessados a partir de uma escala externa, no caso do volume dos fundos, configurando áreas de convívio junto aos espelhos d’água. Tais áreas poderão ser ou não acessadas a partir do primeiro pavimento tipo, a depender de discussões futuras.

  1. DISTRIBUIÇÃO PROGRAMÁTICA CA=2

A distribuição dos programas na versão CA=2 segue a mesma lógica do CA=1, sendo que o térreo, subsolo e pavimentos-tipo são idênticos. Obviamente, o ajuste de layout e de programa depende de análise das demandas específicas da Porto Seguro em uma segunda etapa.

A única exceção diz respeito ao pavimento intermediário, junto aos espelhos d’agua, que transforma-se neste caso em área de convívio e comporta salas de reuniões com vedações em vidro. Trata-se de uma área que é parcialmente sombreada pelo volume superior e configura-se como percurso qualificado, servindo tanto ao edifício novo quanto aos já existentes.

Neste pavimento, junto ao núcleo hidráulico, prevemos uma copa de apoio a estas salas e eventuais eventos que possam ali ocorrer.

ficha técnica

localização: são paulo - sp, brasil
área: versão menor 1600,0 m2 / versão maior 2300,0 m2

ano do projeto: 2016

projeto desenvolvido pelo Piratininga Arquitetos Associados
equipe: Bruno Rossi, Marlo Longo, Ingrid Ori, Davi Eustachio, João Paulo Beugger, Renata Semin e Marcos Aldrighi.
imagens: Jonas Bernardi

premiações

projeto finalista de concurso fechado